Tuesday, October 15, 2013

[Flashback] Charmed - 1.02: I've Got You Under My Skin


Primeira lição: Nunca confie em um homem bonito.


Alerta de Spoilers!

Mais discurso feminista delicadamente entalhado em todo o segundo episódio de Charmed, de forma a me levar crer que não é apenas sobre poder mágico, é sobre toda a beleza de ser mulher e ter em si o poder de mudar não apenas sua própria vida, mas o destino da humanidade. Ao mesmo tempo em que a série diz, existem lá seus problemas em ser mulher, a vaidade sendo um deles.

Enquanto esteve no comando de Charmed, Constance M. Burge sempre prezou por esse discurso mais politizado, com um viés para as relações interpessoais de suas três protagonistas. Tudo na série gira ao redor de conceitos saídos diretamente de uma cartilha de protesto feminista. De modo a mostrar que toda a dinâmica por trás de ser uma bruxa em tempos modernos é uma expressão do que sempre foi ser uma mulher em qualquer período histórico.

Se para você pareceu uma brincadeira o medo de Piper de ser uma bruxa e por isso ser castigada por Deus, saiba que existe algo mais profundo nesse segmento. Não era ser bruxa o motivo pelo qual muitas mulheres foram queimadas durante a inquisição, foi por serem mulheres. Ser mulher sempre apresentou um risco a religião cristã, que sempre foi baseada exclusivamente em um verdadeiro clube do bolinha. Logo, o pecado interior cresce exponencialmente, a dúvida de que se possa ser algo desvirtuado, meramente por que alguém disse assim. Não estamos vendo um plot jogado ao vento, estamos acompanhando a construção da personalidade de Piper, a mulher que vive no meio. No meio das outras irmãs, no meio de seus medos e preconceitos, no meio, jamais excluída.

Prue é a personificação da mulher moderna e seu padrão de vida "diferenciado". Trabalho e sucesso são seu alvo. Romance ainda é uma opção, mas nesse caso apenas uma opção, não uma obrigação. É engraçado ver esse padrão em uma série de 1998, mostrando o quão diferentes as coisas estavam de hoje. A grande maioria das séries envolvendo mulheres em seu papel principal giram em torno de um parceiro do sexo masculino, mesmo quando esse parceiro esteja escondido nas entrelinhas. Mais uma vez, esse discurso de mulheres fortes e independentes foi graças a Constance. 

Já a irmã do meio, Piper, foca também em sua carreia, mas sempre mantendo sua preocupação em outro dos fatores que sempre foram inerentes as mulheres, o mundo externo. Ou melhor, como esse mundo a vê. A preocupação com as aparências. Se para ela, era ser uma boa cristã, para outras pode se encaixar em ser uma boa mãe, ser uma boa aluna, boa filha. Sendo assim, Piper explora essa cobrança interna que existe dentro de nós em sempre "agradar" ao mundo. A vaidade da alma. E a ligação dessa vaidade a ignorância é muito boa, o trovão a assusta e ao mesmo tempo nos acorda para o que está escondido nessa cena. Quando ela se preocupa com o mundo externo, esquece de olhar dentro de si. Ser uma bruxa não a faz ser uma pessoa má, ser guiada pelas suas emoções, que é a magia, também não. Ser guiada pela crença popular e folclore, sim, é perigoso. 

Terminando com Phoebe, que carrega em si alguns dos arquétipos mais pessimistas que toda feminista gosta de fingir que já se elevou o suficiente ao ponto de não tê-los. Phoebe é vaidosa, é gananciosa. Tem seu bom coração, mas se quebra diante de um bom homem ou uma boa oportunidade. Ela é tudo aquilo que podemos chamar de "provação" antes da salvação. Para que ela consiga superar seus problemas e fugir do demônio com vida ela precisa se desligar de seus prazeres mundanos.

São três irmãs, todas as três lutando por uma conquista pessoal, Javna mostra então que é o monstro que consome aquilo que a mulher preza, sua juventude e beleza. Javna é o demônio interior, nada mais simples do que isso. O próprio feitiço que é utilizado para derrota-lo é a "Mão de Fátima", a filha preferida de Maomé. Conseguem ver isso? Essa riqueza no discurso feminista é algo que dificilmente você entenderá se não analisar com cuidado aquilo que a série propõe. E é por isso que essa primeira temporada de Charmed é minha favorita. Sua delicadeza em mesclar a vida de três mulheres e o desejo de todas elas é algo que muitas séries hoje em dia não se preocupam em ser/fazer. 

Ps. Prue e Andy foram namoradinhos no colegial, explicando a tensão entre os dois.

Ps². Piper: Não me ponham no meio disso.  Prue: Eu não estou te colocando, você nasceu no meio.
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